Introdução ao Daksi
Relato de Shela Ketz, sacerdotisa conscrita de Terl.
Está certo, eu conto. Não tenho o estilo de um bardo-sacerdote, não sou imparcial como um historiador, não passo de uma sacerdotisa terlize que quase não fala em público, mas se vocês sentarem aqui perto de mim eu posso contar sobre o daksi. Desculpem minha falta de jeito, mas podem ter certeza de que o meu relato é verdadeiro. Nós terlizes nunca mentimos.
Antes de tudo, preciso explicar que o daksi tem de tão forte para nós, andrish. É preciso que eu volte muito atrás; para o tempo dos deuses. Diz o Ur, nossa saga, que quando os deuses deixaram o mundo, os povos sagrados lutaram entre si pelo poder sobre as estrelas. Eles são sukak, o povo de Sukassi; terlize, a gente de Terl; ghi'al, os filhos de Ghyla; heakla, os homens dourados; e sheitzi, aqueles do gelo. Esses são os Cinco Povos, os povos sagrados, surgidos do próprio corpo dos deuses; é o que dizem nossos mitos. Lutaram uns com os outros, ghi'als contra terlizes, sukaks contra sheitzis, heaklas contra ghi'als, e Andrameni não teve mais paz. Por muito tempo brigaram; mas um dia perceberam seu erro e escolheram que outro povo governasse sobre eles. Assim escolheram os silkis, o povo negro, que se mantivera neutro na briga. Os deuses vieram abençoar a escolha; e foi previsto que a paz reinaria por mil gerações, até que um rei tirânico ergueria os Cinco Povos por sua liberdade. E assim foi. O que sabemos é que há mais tempo que a História o Rei silki governa toda Andrameni, prometendo respeitar o Conselho dos Povos Sagrados como fonte de seu poder.
Mas voltando então, o daksi. Eles vestem-se todos iguais, sem nada que permita distinguir líder de novato, terlize de sheitzi, em uniformes negros de guerreiros ou diplomatas. Todos negros, sem um friso branco. Usam uma insígnia toda negra, e às vezes até andam em naves pintadas de negro. No entanto, em mil gerações ninguém como eles desafiou o poder do Povo Negro! Seu refúgio é um segredo desejado e por isso bem guardado, mas de todas as partes de Andrameni, a cada dia, homens e mulheres partem para se unir a eles, e só os deuses sabem como os encontram! Em maioria são muito jovens, alguns até de quinze anos, e mesmo seus líderes não chegam aos trinta; ao menos é o que se fala. Porém não são só adolescentes; eu mesma já vi, com meus olhos, homens veneráveis abandonando seus netos para se unir a esses garotos. Já vi guerreiros sheitzis cobertos de cicatrizes e suvenires de guerra obedecendo a ordens de jovens heaklas tão frágeis que mal conseguiam erguer a arma que empunhavam. Vi ghi'als e sukaks lutando lado a lado, ombro a ombro, sem distinção em seus uniformes negros, tal como no tempo em que os deuses eram entre os homens. E também alguns de vocês, le'andriz, lutando como se fossem de nossa gente.
Mas você, não, ela estava me perguntando... Sim, o que a história dos Cinco Povos tem a ver com o daksi. Bom, os daksi dizem que as mil gerações chegaram ao fim, agora que os silkis desrespeitaram o mandato que lhes foi dado. Isso é porque, quando o Povo Negro ganhou o poder, algo ficou errado: eles contam apenas quatro Povos Sagrados, pois vêem o Povo Dourado como degeneração. Por mil gerações isso foi tratado com cautela. Mas veio o dia em que o herdeiro do Rei casou-se com uma heakla e por isso viu-se kalen. Lakim, terceiro desse nome, era homem bom e foi um Rei justo e honesto. Mas respeitava as tradições de seu povo e teve de expulsar o próprio filho, renegar o único neto, esse menino de cabelos de ouro e pele morena que carrega o peso de ter um nome silki e heakla. Há oito anos Lakim Leider morreu, deixando como herdeira sua filha mais nova.
Os heaklas não aceitaram, pois a consorte do Rei deveria ser de um dos Povos Sagrados ou silki, e isso não excluía o marido de uma dos flokhiz; muitos ergueram-se em armas, embora não sejam de luta. Pediram parecer ao Conselho, que ia confirmar o desventurado príncipe como herdeiro legítimo. Mas a mão vermelha de Sukassi adiantou-se; no instante em que o Conselho deliberava, morreram o pobre rapaz e sua mulher nas armas de uma patrulha silki que atirou sobre eles por engano e para todo seu pesar. Toda a diplomacia dos Cinco Povos foi inútil, então; nenhuma concessão foi feita, mesmo quando o líder do Povo Dourado foi assassinado diante dos olhos da Rainha, e a repressão sobre o levante heakla prometia varrer qualquer sombra do belo povo dos campos de ukar. O Conselho não podia admitir isso, mas os silkis não permitiam menos, e os velhos diplomatas já não sabiam o que fazer.
Então algo aconteceu. Um rapaz de 19 anos levantou-se no meio da negociação e proclamou que as mil gerações haviam chegado. Atirou sua insígnia terlize sobre a mesa e saiu, convocando a revolta de todos os que queriam mudança. Mas não usou o termo siama, como os silkis dizem; ele falou daksi, que é outra palavra para revolução em andrish. Então um segundo, ainda mais novo, repetiu seu gesto, e repetiu com ele: daksi. E uma mulher fez o mesmo. E outros, vários outros: ghi'als, sukaks, todos os jovens da sala, exceto a Rainha. Até mesmo silkis. Quando vocês ouvirem falar em Proclamação de Ori'an, saibam que é só isso: um bando de jovens, liderados por um terlize quase menino, declarando em público que preferem renegar seus povos a viver oprimidos.
Como? Se eu conheço esse rapaz terlize? Ah! Há muitos anos, cidadão: Kaylan Heidl é meu irmão mais velho. É claro que sempre vou protegê-lo! Ele não é do meu clã, mas é do meu sangue. E é terlize, como eu não o protegeria? Ele nem mesmo está mentindo...
Enfim, foi assim, dizem, que se ergueu o daksi. Isso foi há quase sete anos... a Proclamação de Ori'an vai fazer sete anos no terceiro décimo. E no Y'elte , há sete anos, eles já estavam armados, organizados, erguidos contra a Rainha. Desde então, nunca se sabe onde está o levante: ele está aqui ou ali, perto de Andare ou nos campos de ukar, no território dos homens-cavalos ou no coração das estrelas silkis. Quem eu acho que vencerá? A saga diz que quando o filho dos deuses, que foi escondido, voltar ao mundo, o partido que o tiver consigo será o vitorioso. E isso ainda não aconteceu. Sim, acredito que seja um mito, uma fábula, o símbolo de algo que está por vir. Talvez algum ghi'al sacerdote saiba, mas eu não posso ver o futuro.
Não entendi. Como? Ah, por favor!, não me pergunte isso. Você vai me comprometer. Por favor... Sim, entendo, mas... Isso pode pôr minha vida em risco, entende? Eu tenho fi.. Está bem. Está bem. Se querem saber, vejam isto. Sim, é uma insígnia negra. Sim, eu sou daksi.
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